Era
uma tarde super quente de setembro e durante o verão em Campinas é
quase perigoso ficar andando a pé nas ruas. Mas a gente era
estudante e sem carro.
Lisa
e eu tínhamos voltado de um almoço grande demais na feirinha da
universidade, e estávamos jogadas no sofá da república dela
tentando digerir aquela quantidade de comida. Era no máximo duas da
tarde quando meu celular começou a vibrar cheio de mensagens de uma
amiga nossa desesperada do outro lado. Eu não estava exatamente na
minha melhor forma física para entender o que tava acontecendo com
ela - quente demais e comida demais na minha barriga - então eu
liguei e disse:
-
Me encontra no Pepe Loco.
Pepe
Loco era um fast food de comida mexicana que ficava exatamente
entre a república da Lisa e a república de Caroline, e também era
o único lugar que seria perto o suficiente para que eu pudesse andar
debaixo daquele calor. Eu já tinha uma ideia do que se tratava e por
isso mesmo sugeri um lugar com comida, porque tinha certeza que ela
não teria comido nada o dia inteiro. Caroline pediu um super combo
com mini churros, sentou na mesa e me disse:
-Tô
apaixonada e não aguento mais isso.
Caroline
era francesa, ia ficar em Campinas por 6 meses fazendo intercâmbio e
estava completamente apaixonada por um outro intercambista. Ela
também estava completamente ciente de que aquela era a receita mais
clássica de amor sofrido universitário. Caroline já tinha passado
por uns relacionamentos difíceis na vida e o que ela precisava mesmo
era dizer em voz alta tudo aquilo que já tinha decidido, e o meu
papel ali era mais de ouvinte. Depois de uma hora de conversa eu
tinha a impressão que passei a conhecer demais a intimidade dela,
nós já éramos amigas antes, mas com esse momento eu senti uma
necessidade gigantesca de oferecer um pouco de mim. Foi quando eu
disse:
-Também
acho que tô apaixonada. Não, eu definitivamente estou.
Era
um segredo que eu vinha guardando dentro de mim e não tinha ainda
falado sobre aquilo nem em voz alta. Não era segredo porque eu
simplesmente tinha um medo adolescente que ele soubesse e me
rejeitasse, mas porque analisando pragmaticamente a situação, eu
sabia que as chances de desastre absoluto eram grandes.
Ele
era francês, veio morar em Campinas para fazer o doutorado e era
absolutamente adorável. Ele saia para dançar com a gente sempre, e
topava qualquer viagem de última hora que a Lisa inventava de
organizar. Ele era uma pessoa de coração puro e que transmitia uma
energia tão boa, que todo mundo comentava sobre isso. Mas ele tinha
uma namorada, também francesa e que morava na França.
Isso
complicava todos os meus sentimentos, primeiro porque ele era um
ótimo amigo que eu não queria arriscar perder, segundo porque ele
era o tipo de pessoa que jamais terminaria com a namorada por skype,
muito menos ficaria comigo antes de ter a possibilidade de um término
decente. Isso se eu tivesse alguma chance mínima, o que eu achava
que não tinha.
A
parte mais chocante desse conversa com Caroline foi quando ela me
disse que desconfiava, inclusive que eu era meio óbvia! Como eu
podia ser óbvia se nunca falei sobre isso com ninguém?
-Parece
que o mundo inteiro desaparece ao teu redor quando vocês estão
conversando e isso é bem óbvio de perceber.
Essas
foram as exatas palavras que ela usou. Voltei para casa com duas
certezas naquele dia, a primeira de que eu precisava tentar me
afastar dele, a segunda de que Caroline precisava esquecer essa
paixão dela de intercâmbio.
Mas
eu não me afastei.
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