A Corrida



Já era sábado e Yan ainda não sabia se teria tempo de ir ao show. Ele disse que precisava terminar de escrever um artigo, e, por sorte, eu tinha chamado um outro amigo para ir junto. Jean, que também era francês, ainda estava se recuperando da festa da noite anterior quando mandei uma mensagem chamando para almoçar. Ele disse que precisava de 15 minutos para entender onde ele estava exatamente, mas que topava pular o café da manhã e ir almoçar comigo no lugar mais badalado do momento: o restaurante barato. Obviamente esse não era o nome do lugar, mas vamos chamá-lo assim porque o grande atrativo para qualquer estudante era poder economizar dinheiro.
Depois do almoço caminhamos até o supermercado para comprar as cervejas e as comidas que levaríamos pro show mais tarde. Essas apresentações aconteciam no campus uma vez por mês durante a tarde, e eu amava estar naquele ambiente cheio de pessoas tranquilas fazendo piquenique na grama ao som de música boa, portanto a ocasião merecia comida. Depois que compramos tudo e combinamos de nos encontrarmos às 16:00, sentei em uma das mesinhas da lanchonete na saída do supermercado. Fiquei totalmente distraída tomando um café e imaginando situações que jamais aconteceriam na vida real quando, de repente, fui sugada de volta pra realidade. Yan estava no supermercado quase terminando de pagar e provavelmente ia vir na minha direção para ir embora. Me escondi.
O cérebro de uma pessoa apaixonada é realmente território desconhecido pela Ciência, porque até hoje eu me pergunto porque diabos eu me escondi naquele momento. WHY?. Meu raciocínio foi de que ele não queria ir para o piquenique, inventou uma desculpa e foi fazer outra coisa mais interessante. Como é que é? O menino fazia doutorado, te disse que precisava trabalhar durante a tarde, algo perfeitamente normal, saiu do casulo para provavelmente comprar alguma coisa pra comer e isso “tudo” porque não queria te ver? Em minha defesa prefiro usar a justificativa de que só tive 10 segundos para raciocinar e decidir qual seria a minha reação, soa menos ridículo e egocêntrico se você pensar assim.
Quando cheguei no gramado da Biologia para a apresentação, Jean já estava lá e tinha levado dois outros amigos franceses que eu não conhecia. Eu sei que a minha história muitas vezes parece cheia de franceses demais, para um distrito de uma cidade do interior do Brasil, mas até eu esqueço que estou no Brasil algumas vezes.
Saquei uma toalha de piquenique da bolsa e quando um dos amigos de Jean viu, foi logo falando que eu não poderia ser brasileira, e perguntando de onde eu era. Se você, assim como eu, não entendeu o que ele quis dizer com isso, o meu melhor palpite me diz que ele quis fazer um elogio, mas falhou totalmente.
O show só durava duas horas e quando eu já tinha desistido de esperar, Yan finalmente apareceu. Tentei fortemente parecer casual com a chegada dele, enquanto que por dentro meu coração já tinha subido pro cérebro. Ele me deu um oi tão casual quanto a minha reação e não falou muito o resto do show. Estranho. Na hora de ir embora ele me acompanhou na longa caminhada de volta pra casa e de repente tudo voltou ao normal. Não preciso nem dizer que eram tempos muito confusos para a minha cabeça, pro meu coração e não fazia a menor ideia do motivo daquele silêncio, nem do fim dele. Adianto logo pra vocês que esse mistério só será desvendado meses depois.
Faltava apenas mais alguns minutos até chegarmos ao meu portão, lá a gente diria “tchau” e eu ficaria o resto da noite revirando e pensando sobre aquele silêncio de antes. Fiquei nervosa só de pensar na quantidade de séries que seriam vistas e porcarias que seriam comidas durante esse processo, então acabei fazendo o clássico: falei demais. Ele me chamou pra correr e eu topei. C-o-r-r-e-r. Errei feio, errei rude. Quando vi estava feito, falado e com firma reconhecida em Cartório: eu ia correr.
Um dos personagens dessa história é muito mais sensato do que o outro, e obviamente não sou eu. Yan não era tonto e sabia que ia precisar diminuir o ritmo, então me ensinou a respirar melhor, como correr corretamente, como aguentar as dores da fadiga... e não é que corremos?
A corrida foi um sucesso tão grande que tivemos direito a pôr do sol no Observatório do campus e tudo. Era a primeira vez dele naquela parte da universidade e ele estava completamente deslumbrado. A vista do Observatório era realmente linda mesmo com o prédio novo na frente, já eu, por outro lado, esbanjava minha graciosidade em forma de corpo desmaiado jogado pela calçada.
A volta pra casa foi uma caminhada normal porque nem em Salvador você encontraria ladeira inclinada como aquela do Observatório, beirava a necessidade de trazer uns acessórios para rapel à tiracolo. Aquele caminho de volta pela Avenida 2 me trazia a mesma angústia de duas horas atrás. Não queria ir embora. Mas dessa vez a sorte estava totalmente ao meu favor e em forma de pizza.
Quem mora ali por perto sabe que o cheiro da pizzaria da pirâmide é tão bom que atrai até os intolerantes à lactose e foi, quase que literalmente, o que aconteceu. A gente nem conseguia lembrar qual tinha sido a última coisa que tínhamos comido, muito menos pensar que todo aquele esforço em breve se tornaria One minute on the lips, forever on the hips. Era sábado e a companhia tava boa, o que você teria feito?
Comemos pizza, tomamos refrigerantes e fizemos tudo aquilo que o Manual dos Corredores proibe pelo menos pelos 30 minutos após uma corrida, mas a melhor parte foi ele ter pago tudo e me dado de mãos beijadas uma desculpa pra combinar uma próxima pizza por minha conta.

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