A Tempestade






Eu não me afastei, eu tentei seriamente, mas essas redes sociais integradas são muito tentadoras, principalmente quando você senta todo dia sozinha por 30 minutos no ônibus de volta da faculdade para casa. Eu peguei um livro na bolsa, tirei artigos de dentro de uma pasta para ler, mexi no celular atrás de uma música que distraísse minha cabeça, mas o dedo deslizou até o aplicativo errado e digitou "Yan", quando vi lá estava eu mandando um “oi". Malditos celulares com 3G.
Naquele dia alguma coisa muito séria tinha acontecido e quando me dei conta estávamos combinando de sair para comer...assim que meu ônibus chegasse no Terminal! Ele precisava conversar e eu tinha um medo gigantesco dentro de mim de que aquele fosse o momento em que eu me tornaria o ombro amigo. Não me entenda mal, o que eu não queria era me encontrar na situação em que ele me pediria conselho amoroso e eu acabaria sugerindo "Fugir para a Chapada Diamantina e construir uma casinha de sapê com moi?"
A minha ideia era simples: dizer que a gente não precisava conversar sobre o assunto se ele não quisesse. Genial.
Saí do ônibus e ele estava me esperando. Para derreter ainda mais meu coração, me deu um abraço e perguntou como foi meu dia. Porque ele tinha que ser tão legal e gentil e perfeito? Caminhamos até um restaurante árabe ali perto e até o momento de fazermos o pedido meu plano de não falar sobre o assunto ia bem. Mas eu sabia que uma hora ele ia falar, então eu tinha que ter um Plano B na manga.
No dia anterior houve uma tempestade apocalíptica que aparentemente fez cair a energia da universidade durante a noite. Eu não sabia disso e nem sonhava que a nossa conversa ia ter a ver com isso.
Foi quando ele me disse que perdeu tudo, todos os dados e tudo que tinha sido feito nos últimos 6 meses de doutorado. Ele de um lado quase chorando e eu do outro quase pulando da janela por ter sido tão estúpida.
Ele estava inconsolável e não tinha muito o que eu pudesse dizer que o confortasse. Acho que uma grande sabedoria que a gente adquire depois dos 20 é perceber quando seu amigo precisa de alguém que possa simplesmente ouvir. Mas lá para o final da noite o ânimo ainda estava down e eu tive uma ideia “Você poderia levar seu Hd para França no fim do ano. Quem sabe não acha alguém lá que conserte?”.
Em dezembro ele iria para a França passar o Natal e o Ano Novo com a família, e por consequência com a namorada, ideia essa que eu não conseguia nem pensar sem revirar os olhos. Depois disso ele passaria o mês de janeiro em Paris e lá poderia levar o Hd para alguém na École dar uma olhada.
Ninguém na universidade em Campinas tinha conseguido resolver o problema, então ele não estava exatamente confiante de que alguém na França conseguiria. Mas foi a melhor ideia que eu pude oferecer e assim acho que ele foi para casa um pouco mais esperançoso. 
Eu tenho o hábito de pedir para os meus amigos que me mandem uma mensagem dizendo que chegaram bem em casa e Yan já estava tão acostumado que eu nem precisava mais pedir. A república dele era perto de onde eu morava, então mal cheguei em casa e meu celular deu um pulo sincronizando um dueto taquicardíaco com o meu coração, assim como todas as vezes que eu recebia uma mensagem dele. Ele era a única pessoa que eu conhecia que ainda enviava SMS, e na mensagem ele me pedia desculpas por não ter perguntado nada sobre o meu estágio ou sobre em que pé andava essa história.
Eu estava tentando fazer um estágio fora do Brasil e naqueles meses vivia tensa sem saber se daria certo ou não, se teria que trancar o semestre na faculdade ou não, se veria ele de novo ou não, sendo a última parte a única que me trazia realmente uma leve tristeza. E como eu não tinha a resposta para nenhuma daquelas perguntas, tudo que eu podia fazer era perguntar se ele queria ir sábado de tarde numa apresentação de folk music no gramado da Faculdade de Biologia.







Fotografia: "The Keepers" por Nicholas Scarpinato (https://www.flickr.com/photos/nicholasscarpinato)




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