A praia




Vou pular um pouco a história para novembro e fico devendo a pizza do conto passado, mas ainda tem muita linha pra tecer o desenrolar dessa história.
Sexta era dia de churrasco na república da Lisa, mas eu, como sempre, só poderia ir depois da aula. Quem faz curso noturno sabe que a última aula sempre acaba tarde e você volta pra casa estilo zumbi quase todos os dias, então a minha intenção era passar 1 horinha com eles e pedir um táxi de volta pra casa.
Em algum canto do meu cérebro existia uma placa em amarelo-marca-texto escrito DANGER DE MORT e que sinalizava pra mim quando achava que eu devia me proteger. Obviamente eu não passei 1 hora lá. Pensei que se eu planejava pedir um táxi, poderia voltar para casa quando bem entendesse e ainda por cima, Yan não estaria lá, então não precisaria passar a noite policiando minhas palavras.
Ainda não apresentei Morgane, mas ela era outra amiga francesa e estava no churrasco nesse dia. Ela e Lisa estavam animadíssimas porque na manhã seguinte iam para o Guarujá e não conseguiam acreditar que eu não ia. Esse assunto vinha vibrando no meu celular há tempo demais no grupo do Facebook e, mesmo assim, elas passaram a noite inteira falando sobre isso, como se fosse uma viagem pra uma outra galáxia. A minha desculpa era que eu precisava economizar - parcialmente verdade – mas o que eu não dizia era que queria evitar passar o fim de semana na praia com Yan. Não queria dar corda pra uma coisa que não daria certo, principalmente quando a placa amarelo-marca-texto gritava pra mim.
Essa noite, como muitas noites em repúblicas, acabou continuando no Bar do Zé. Já era 1:00 da manhã e de repente todo mundo concordou que ir pra lá era uma ótima ideia, o que obviamente não era porque a banda já deveria estar quase indo embora nessa altura da noite. Fomos.
Mas, mesmo debaixo de toda aquela música alta e de todos aqueles mojitos na minha cabeça, ainda pesava o fato de que no domingo seria aniversário do Yan e, de certa forma, eu estava dizendo não para isso se não fosse para a praia.
Já era metade de novembro e depois de dezembro eu não sabia mais o que seria de mim, ou dele e até mesmo do nosso grupo de amigos, todo mundo em breve estaria indo embora e aquele fim de semana seria precioso pros laços de amizade entre a gente. Eu particularmente acho que a praia sela amizades. Essa ideia me corroía por dentro e eu fui pra casa meio mole do coração.
Enquanto pensava, ia jogando umas coisas dentro da mochila, mas era tarde demais (ou cedo demais) pra avisar a alguém que eu tinha decido ir. Pra ser sincera eu só decidi mesmo quando vi o céu dourar devagarzinho com o nascer do sol e, de repente, me deu um aperto no coração só de imaginar não estar com eles no fim de semana.
Eu sabia que pegariam o ônibus das 6:30 da manhã na rodoviária, sabia também que se eu saísse cedinho chegaria na hora e não precisaria acordar ninguém pra avisar nada. Barão Geraldo com aquela cara de cidade abandonada pós acidente nuclear, que tem todo sábado de manhã, e eu andando na ponta dos pés com a mochila nas costas, quando de repente escuto um grito EI MOÇA MOÇA EI.
Quais são as chances de, no deserto de Barão Geraldo às 5:45 da manhã, você encontrar alguém que vai te parar e te fazer perguntas justamente quando você está com toda a pressa do mundo? 100% é claro.
Cheguei na rodoviária atrasada e mesmo assim, antes de todo mundo. Eu sou míope e estava sem óculos, mas deu pra ver de longe os sorrisos enormes quando me viram na entrada de mochila nas costas e de cara amassada da noite virada. Mas o sorriso mais legal era de Yan, porque era sempre seguido de um abraço. E naquele dia, além do abraço, ele me agradeceu por ter aparecido, e foi tão sincero que me senti feliz pela decisão.
Chegamos no Guarujá e como todo mundo era gringo, ninguém tinha a menor noção de como chegar na pousada. Imagina se eu não tivesse ido? Coloquei todo mundo dentro de um terminal de ônibus e brasilerei. Sai perguntando informação pra todo mundo, confirmando com motorista, cobrador, tiozinho vendendo bala. Chegamos vivos e a pousada era um sonho, com uma micro piscina, mas perfeita pro nosso fim de semana.
A grande expectativa da viagem era uma festa que Morgane falou que ia acontecer. Primeiro entendemos que era uma festa na casa de praia de alguém, depois entendemos que era uma balada mesmo, e só no fim que a nossa entrada era VIP graças a uns amigos dela. Sucesso.
Todo mundo de Havaianas nos pés, roupas simples de praia e entrada VIP, contrastando totalmente com as mulheres desfilando no tapete vermelho de Hollywood, que era o lugar. Foi aí que a gente entendeu que a história não era bem como tinha sido apresentada. O VIP era só para as meninas, como se existisse alguma possibilidade de entrarmos sem o resto do pessoal, mas é exatamente esse tipo de lema que tinha o lugar: fazer os homens desistirem. Tudo conspirava pra ser a pior balada da história da minha vida, mas pelo espírito de grupo, concordamos até em esperar a infinidade de tempo que eles forçavam todo mundo esperar na fila. Essas baladas “do momento” criam a fama fazendo filas eternas na porta e deixando todo mundo que passa com a impressão que deve ser o lugar mais legal do mundo. Eu lembro de já estar sentada no chão perto de um coqueiro junto às meninas, desistindo de tudo, celular na mão chamando um taxi de volta pra pousada, quando finalmente deixaram a gente entrar.
Quando todos nós estávamos finalmente dentro, VIPs e não-VIPs, lembro de um olhar estampado na nossa testa de: festa-estranha-com-gente-esquisita. Olhar também muito parecido com aquele trocado em Jogos Vorazes entre a Katniss e o Peetar quando estão em uma festa chiquérrima com pessoas comendo até vomitar:
- De que planeta são vocês? - pensei
Depois de acostumarmos nossos olhos e ouvidos com aquelas pessoas bem vestidas demais pra uma festa na beira da praia e com uma música que tocava para pessoas bem vestidas demais para uma festa na beira da praia, percebemos que o potencial de diversão era alto. Em um certo momento, quando as pessoas já estavam voltando para casa com os pares da noite, o DJ se sentiu mais a vontade para tocar uma música eletrônica de mais qualidade, a quantidade de pessoas se esbarrando diminuiu e percebemos algo extraordinário: o sol ia nascer na nossa frente.
Até hoje não passei por um momento tão bonito como aquele. Todos nós juntos no nascer do sol mais lindo que vi na minha vida e um DJ que parecia que tocava pra gente. Foi, de longe, o melhor fim de semana na minha vida, segundo Yan, foi o melhor aniversário da vida dele e foi o dia em que eu percebi que minha causa estava completamente perdida. Tão perdida que ficou por lá, pelas areias do Guarujá e não voltou pra Campinas comigo. Outra coisa voltou no lugar, uma pergunta bem mais difícil: o que diabos eu vou fazer com esse menino?


















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